Psicologia é Ciência - e isso faz toda a diferença

Publicado em 29 de maio de 2026 às 00:12

Psicologia é ciência. E isso não é um pormenor: é o grande pilar que diferencia a intervenção do psicólogo no âmbito da saúde mental.

Focaremos um ponto fundamental que distingue o psicólogo de outros intervenientes: a prática baseada em evidência. O mesmo que dizer, fundamentada em produção científica. O método científico é o mesmo em qualquer área do saber – da matemática à biologia, da física à sociologia. O método científico desenvolveu-se ao longo de séculos e pode caracterizar-se segundo alguns princípios básicos:

  • As teorias não podem ficar no abstrato, nem no campo das opiniões. Têm de ser validadas (confirmadas) pela experiência real. Ou seja, a realização de estudos em que são testadas na prática essas ideias.
  • Formulação de hipóteses prévias, que ajudam a clarificar o que vamos estudar e como vamos fazer as nossas observações. É preciso ser específico para que as ferramentas escolhidas realmente avaliem aquilo que se quer avaliar.
  • A realização das observações e testagens submete-se a regras apertadas, ou seja, há exigências muito concretas quanto aos métodos, ferramentas e etapas que têm de ser usadas para que o estudo científico seja considerado válido. A estatística entra aqui como uma ferramenta mais objetiva para observar e medir os resultados. O rigor é uma base essencial de todo o processo científico.
  • Os estudos científicos estão sujeitos à avaliação de pares, ou seja, outros investigadores da mesma área científica. A validação do estudo e respetivas conclusões depende sempre da análise de outros investigadores de todos os passos, instrumentos e metodologias que foram adotadas. Se o estudo apresenta falhas perante a revisão dos pares, é rejeitado.
  • Mesmo quando um estudo é considerado válido/rigoroso, não tem relevância isoladamente. Um estudo, mesmo com resultados muito impressionantes ou extremos, é sempre considerado uma evidência que necessita de replicação por outros profissionais, com outras amostras e/ou noutros contextos. Quanto mais estudos confirmam o mesmo tipo de resultado, mais força ganham as hipóteses.
  • Em ciência, nunca há conclusões absolutas. Qualquer teoria ou estudo pode ser refutado – desde que devidamente apoiado em estudos que o fundamentem. Isso é evolução do conhecimento, e requer uma abertura permanente a questões, melhoramentos e desenvolvimento. Há um ceticismo saudável que alimenta a curiosidade dos investigadores.
  • A ciência erra e tem falhas. Mas os investigadores têm essa consciência e trabalham de forma consistente e rigorosa para reduzir a proporção de erros e proporcionar conhecimento fundamentado que contribua para o desenvolvimento humano.

 

Complexo, não é? E não poderia ser de outra forma. As teorias e metodologias dos vários tipos de intervenção em psicologia desenvolveram-se ao longo de décadas de investigação científica, e foram ganhando força e legitimidade com base nas evidências favoráveis que foram resultando desses estudos, realizados junto de milhares (ou milhões) de pessoas por todo o mundo. A evolução da psicologia não se construiu com iluminados, génios ou gurus, mas sim com muitos investigadores (a maioria deles anónimos para o público em geral). A ciência não é glamorosa nem recorre a truques de marketing. É muitas vezes invisível e até inconveniente, quando os resultados das investigações desiludem face às expectativas criadas, ou nos mostram o que preferíamos não ver.

Como resultado, a intervenção realizada pelos psicólogos tem sempre esta base de conhecimento e rigor. Pela mesma razão, aumenta a responsabilidade dos profissionais no desempenho da sua profissão, e responde à regulação de uma ordem profissional. A ética, a fundamentação científica e o rigor não ficam ao critério de cada um: são obrigações reguladas. Tudo para defender a qualidade da intervenção e a segurança de quem, muitas vezes tão fragilizado, procura ajuda em saúde mental.

Adicionar comentário

Comentários

Ainda não há comentários.